Uma flecha em repouso e o número 7.
Desde que chegaram as primeiras fotografias, a pedra, o Cristo, a luz tênue, e tudo aquilo muito além de um
volume de destinos, que procurei a palavra. E a palavra não veio. Estavam as fotografias e, do lado de cá, a nãopalavra,
muda, olhando-as como uma miríade de sombras iguais. Assim passaram-se dias e noites, submergindo
naquele horizonte entre raios e água e mármore e sangue e folha. Mario Cravo Neto havia me dito que via
essas imagens como um sonho, como “névoa”, que entre elas havia um som. E que depois de sete anos de
profundo envolvimento com o candomblé, as “coisas” haviam se tornado turvas, como um tempo de espera.
Foi então que fiquei olhando para a primeira imagem, quase um objeto tátil, um imediato ponto vermelho de
um sacrifício para Exu e sua seqüência de sombras, de “névoa”, algo como um esboço saído de uma câmera.
Mas ainda não havia a palavra. Por mais que eu a buscasse, a palavra também estava envolta em névoa. Então,
olhei a segunda imagem: entre uma tênue luz e o mármore do tempo, estava a Pietá di Palestrina. Numa
composição inacabada, numa verve de suportes – e luz e pedra, como homens e deuses – a imagem tornara-se
gêmea como uma pintura onde outra vez o vermelho formara um díptico para um homem só. Ali, não há ilusão.
Existem três limites nas imagens de Mario Cravo Neto: Um: Nascimento. Dois: Passagem. Três: Deslocamento.
No meio dessa única linha invisível de existência, uma voz que respira lentamente procura por si mesma. É a
continuidade através do sopro: o fotógrafo absorve o acaso: ali está o ritmo que aproxima Cristo de Exu.
Depois chegaram todas as outras imagens. E eu tive que levá-las comigo, de uma cidade para outra (São
Paulo – Salvador), mais uma vez em silêncio, porque, agora, sim, era a minha vez. Eu estaria diante do mais
profundo exercício que a existência seria capaz de me propor: Gilda, minha mãe, começara a parar de respirar.
Durante os quatro últimos dias que ficamos juntos e enquanto ela dormia, eu abria as imagens e ali existia
tudo aquilo: Um: Nascimento. Dois: Passagem. Três: Deslocamento. Mas todas as vezes que procurei a palavra,
novamente ela não veio. Então, eu olhava as fotografias que Mario Cravo Neto me enviou e pensava (enquanto os
aparelhos assentavam os gráficos entre a vida e o ar que aos poucos fugia, para o que acreditamos ser o
outro início): o que dizer sobre esse “sonho em fuga” de novo como uma “névoa”, uma vez como fumaça, que
o fotógrafo invadiu na ponte entre Cachoeira e São Félix? Por que essa quase abstração rompe esse período e
nós sabemos que ali não há abstração nenhuma, mas, sim, um reflexo de memória? De que forma um artífice
chega a esse ponto? É quase uma imagem engolida, antropofágica. Poética, em sua mais profunda extensão,
mas antropofágica. Ali não existe distância entre a ponte e o olhar de quem a viu, em névoa, como fumaça.
Entre um dia e outro, das quatro madrugadas que passei em claro, instalado na Ladeira da Gamboa de Cima
(esperando o resultado do ar que aos poucos ia sumindo da vida de Gilda), dava para ver a Avenida Contorno e
eu vi: eles, aqueles outros, os “mesmos nós” que Mario Cravo Neto buscou em Laróyè, o semelhante junguiano
de Exu, todos eles continuavam ali: num estreito caminho de concreto ao longo da avenida e sobre a palafita,
os personagens do livro não dormiam, gritavam e pitavam crack sobre a Baía de Todos os Santos. Esse o ponto:
suas fotografias reconstituem uma cidade ferida na alma da cidade-muda, Salvador. Suas fotografias rumam ao
contrário do perverso tratado de perda de memória pelo qual a Bahia vem passado há mais de uma década e
meia. Suas fotografias nos falam “dos panos das noites de Ébano”. Dos panos de Ébano das noites dos tempos.
Da coroa de folhas de aroeira no ritual de passagem do animal sacrificado para Exu.
Mario me enviou um texto e uma música. O texto, Misticismo e Lógica, de Bertrand Russel, começa dizendo
que nesse mundo de caprichos, “nada é mais caprichoso de que a fama póstuma”. Veja bem: a fama póstuma.
Depois, num raciocínio matemático, questiona: quando um corpo se desloca, “tudo o que podemos dizer é
que ele está num lugar num momento e noutro em outro”. Então, repito sobre as fotografias que aqui estão:
Um: Nascimento. Dois: Passagem. Três: Deslocamento. Russel ainda comenta o indizível: “Uma flecha em vôo
na verdade está em repouso”. Não seria isso o que essas fotografias querem dizer? Se elas reconstroem um
movimento em seus cânticos de existência e símbolos, por que será que elas mesmas ultrapassam a superfície
do corpo? Por que atingem espectros tridimensionais se, quando as vemos, sabemos que terra e músculos e resíduos
são um núcleo de vigília para um mesmo fundamento? Quem de nós se encontrará nesse tempo? E
novamente vem a névoa e o véu de silêncio e a água absoluta. Mas será mesmo assim que se ultrapassa a solidão
cósmica? E vem novamente o extrato, o punctum, a ferroada. O ato de inquietude que nos deixa à beira.
Sabemos que sete anos são muito mais que sete noites, muito mais que sete vezes. Se depois de sete anos as
coisas tornaram-se turvas, o movimento do fotógrafo avança, “água de encontro”, como ele diz. Aqui está o
ponto número dois: que destino tomará suas fotografias? Há uma linha anoitecendo, elíptica, em cada uma
dessas imagens. E outra, renascida com a luz do sol que pergunta: E eu, onde está o meu rosto? E se há espelhos,
por que aquela mulher, fugidia entre sombra e concreto, projeta-se numa epígrafe vertical diante do poste,
como uma mensagem, como uma sombra? A mulher caminhante para o instante seguinte. Será que vem dela
a próxima anunciação? Todos esses personagens fiam-se num relicário em que tudo é “coisa” e contrários e
tocos e penas, já que nas imagens do fotógrafo pedra e carne passam a fazer parte da mesmíssima matéria.
Ao reconstruir uma cidade pérsica em seu vulto de Bahia, sua alma solarenga, seus entornos que repousam
dentro dos olhos do homem que se vê envolto em densa névoa e vê a fotografia erguida em sua “honra de
altares”, Mario Cravo Neto chega ao sertão profundo.