Laróyè!
Edward
Leffingwell
A cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos ocupa a península que separa o Atlântico das águas da baía do mesmo nome. Foi a primeira capital do Brasil português e porto histórico no comércio de escravos. Às vezes chamada de "Roma Negra", Salvador é hoje uma das grandes regiões urbanas do Brasil, mas também uma das mais pobres. É ainda a terra do candomblé, prática religiosa da diáspora africana no Brasil e a mais pura fonte da cultura Yorùbá nas Américas. As divindades do candomblé são os Òrìsà, deuses poderosos que protegem e guiam, concedem favores, entram nos corpos dos iniciados em transe, impondo visões e falando através deles. A Bahia é também o lugar de observâncias sincréticas, que paralelas unem o poder e os atributos dos òrìsà aos dos santos de Roma. Seus praticantes se dizem visitados por ancestrais divinizados, às vezes falando com a voz do òrìsà Èsù - o mensageiro entre homens e deuses e os deuses entre si.
Mario Cravo Neto dedica este livro a Èsù Maragbó. O mais humano dos òrìsà, Èsù é filho de Yemoja, Mãe das Águas, elemento importante nesta estória. Esses deuses que andam entre nós parecem incestuosos, às vezes são estranhamente assexuados. As estórias de nascimento, morte, vida, bem como seus atributos, são complexas em sua fonte. De acordo com os mitos Yorùbá da criação, datados do século dezenove, Yemoja, filha de Odùduà, é terra e mãe dos deuses do povo Yorùbá, e seu pai, chamado de Obàtálá, é o céu, deus supremo, Senhor das Vestes Brancas. Odùduà e Obàtálá são, por sua vez, filhos de Olóòrun, deus do firmamento e de todos os céus. Alguns dizem que os dois são um só, uma única divindade andrógina, representada pela imagem de um ser humano, com um braço, uma perna e uma cauda que termina numa esfera. Outros afirmam que Odùduà teve relações com Olóòrun mas que não foi criada por ele. Olóòrun deu a Obàtálá o domínio sobre o firmamento e o mundo, indo depois descansar.
