No início, conta a estória, Yemoja e seu irmão Aganju, que representa o agreste, tiveram um filho, chamado Orungan, a região do ar e do espaço situada entre o céu e a terra. Mais tarde Orungan enamorou-se de sua mãe, Yemoja, e, aproveitando-se da ausência do pai, a possuiu.

Logo após o ato, Yemoja fugiu, torcendo as mãos, lamentando-se, mas logo foi perseguida por seu filho que tentava consolá-la. Como não podia viver sem ela, Orungan propôs que se unissem nas sombras, tornando-se assim seu marido secreto. Yemoja o repeliu fugindo e quando Orungan estendeu-lhe a mão para capturá-la, ela caiu de costas no chão. Seu corpo se inchou, dos seus seios brotaram dois cursos d’água, que se encontraram formando um lago e de seu ventre aberto saíram os òrìsà que governam as direções do mundo. O primeiro desses foi Èsù. Não é de admirar que seja chamado de "o travesso". O lugar sagrado da morte de Yemoja e nascimento dos òrìsà tornou-se a cidade santa dos povos de língua Yorùbá. É localizada ainda hoje, como em Salvador, onde a água encontra a terra.

Èsù é encontrado nas encruzilhadas e nos lugares onde pessoas se reúnem. Em sua forma feminina é Légba, aquele que traz sonhos eróticos, aparececendo em sua forma masculina ou feminina à maneira do incubi e succubi segundo a tradição medieval. Por esta razão é um ser malicioso cuja casa é a rua. A esfinge de Èsù é colocada na frente de uma cabana protegida por um telhado de sapé. Está sempre nu, com um enorme falo, sentado com as mãos descansando sobre os joelhos. Èsù é quem revela a arte da adivinhação, é o mensageiro entre os òrìsà e as pessoas, e entre os deuses entre si, é o companheiro oculto que atiça o fogo e induz as pessoas a fazerem coisas que têm plena consciência que são más. Ele é jovial, senhor das relações fáceis, indiferente ao certo e ao errado, aquele que assiste, torna os caminhos mais claros.

Além de todos esses atributos, é aquele que festeja. Mario Cravo, que conhece essas coisas, intitula este livro de fotos da Bahia Laróyè! Uma saudação Yorùbá para Èsù que invoca sua presença e seus poderes. Um desses homens magnéticos que pratica o rigor de seu trabalho com pouco tempo para uma penitência, Mario Cravo atrai para si as pessoas que têm a capacidade de apreciar o que fazem, seja lá o que for. Criado pela cultura que o nutre, usa sua câmera e a luz ao seu dispor para contar histórias de noites e dias passados na Bahia, em fotos enquadradas pelo instinto e uma abertura essencial para a beleza de estar lá. Às vezes ele permanece um pouco mais de tempo que os cautelosos que vão cedo para casa,e é assim que essas imagens vinheram a ser.