Mario Cravo Neto

A FOTOGRAFIA DE MARIO CRAVO NETO É FORÇA PURA, que se torna mais perceptível e impactante à medida que os índices da imagem transformam-se em veículos de alguma identidade ancestral prova de que o natureza dos objetos da cena, quando associada ao caráter de um artista sério e respeitado, é o traço de conexão entre os homens e a divindade.

Cada imagem, produzida cuidadosa e conscientemente, advém de um jogo complexo que se desenvolve entre a mimesis do corpo que experimenta e representa, com a herança explícita das vivências culturais. Mario Cravo Neto prefere realizar seus retratos segundo um conceito estético assumido, onde o fundamental é a tensão e a inquietaçao, percebidas nos paradigmas constitutivos da sua fotografia. Ele acredita que todo trabalho criativo tem um fundo místico, ou seja, uma relação do homem com o desconhecido, com o imponderável, com o imprevisível.

As fotografias mostram a diversidade do artista que se definiu diante de uma multiplicidade de influências. A experiência do tempo pode ser demonstrada numa variedade de caminhos: ora e o fotógrafo formalista em busca da organicidade, ora é o fotógrafo que registra urna figuração diretamente retirada do imaginário religioso, ora é o fotógrafo memorialista que tenta preservar o senso da revelação mística através das alegorias dos rituais.

É possível encontrar os vários significados que dão fé à capacidade de síntese de Mario Cravo Neto que traz para seu universo conceitual referencias específicas e sutilezas da cultura afro-brasiIeira. Ele propõe a criação de um universo inventivo e singular, evidenciando ao mesmo tempo um diário contemporâneo que iconiza o sensível, o estranhamento, a melancolia e a angústia. A experiência dos limites do realismo e da memória é percebida através da acumulação do tempo e das inscrições das luzes nos corpos e nos objetos.

Memória, para Aristóteles, é a deusa que impede o esquecimento, que está do lado da luz, da vidência inspirada, da antevisão do futuro pela compreensão profunda do sentimento do passado. Nesse sentido podemos flagrar no trabalho de Mario Cravo Neto uma relação direta com o fotografo e etnógrafo Pierre Fatumbi Verger, um dos maiores estudiosos dos fundamentos históricos, mitológicos e ritualísticos de origem africana.

Mario Cravo Neto deixa claro que Pierre Verger foi o fotografo que mais influenciou seu trabalho em relação à possessão espiritual do corpo. "Ele é o maior fotografo contemporâneo vivo da atualidade". Só que enquanto Verger desenvolveu seu trabalho no campo, Mario Cravo Neto realiza seu trabalho no estúdio.

Por trás dessa nostalgia da representação, ele cria um jogo de forcas antagônicas, onde o mistério, o dramático, o religioso afloram com a mágica transcendência do olhar.

Neste universo íntimo - projetivo, imaginário e simbólico - a essência do trabalho e a poética do silêncio. Ou como escreveu o respeitado crítico norte-americano A. D. Coleman "for all its quietude, Mario Cravo Neto’s world is an optimistic one that bursts with life".

Minimalista, sua acuidade na descrição fotográfica evoca as cicatrizes e as delicadezas de uma herança deixada pela escultura, linguagem que desenvolveu no inicio de suas atividades artísticas. Mario Cravo Neto propõe uma teia de associações que surpreende pela variedade de situações e por sua força imaginativa.

Mas, nunca esquece que sua linguagem e a fotografia. Mario Cravo Neto sabe que proporções, composição e ambiente são critérios importantes na elaboração de sua sintaxe. Sofisticado, ele prefere os detalhes das baixas luzes e a ousadia do foco crítico paro dimensionar os volumes e evidenciar as diferentes texturas.

Alias, a sensação da tatilidade é outro aspecto interessante na obra de Mario Cravo Neto A sensação tátil é ressaltada pelo intensidade de luz e sombra do jogo cênico, pelo ambiente mágico e misterioso e pelos objetos que evocam os mais diversos contextos. Na cultura contemporânea, o olhar é predominante em relação ao cheiro, ao gosto, ao toque, à audição. Nesse momento de dominação do olhar o corpo perde sua materialidade. Transforma-se em imagem, representação.

Com admirável capacidade criativa, Mario Cravo Neto utiliza todo o aparato técnico da fotografia e sua experiência pessoal, para produzir um trabalho provocativo que pela sua transcendência revitaliza as sensações, desejos, medos e fantasias. Fotografias que permitem-nos transitar entre o imaginaria religioso e místico e o abismo que nos separa do real.