Mario Cravo Neto

Peter Weiermair

Mario Cravo Neto foi treinado em artes como escultor, atraindo maior atenção nos anos 80, com instalações – ainda sem recursos fotográficos – nas quais ele justapunha coisas animadas com inanimadas em variadas relações umas com as outras.

Mario Cravo Neto continua a empregar o princípio da instalação até hoje. Um trabalho apresentado recentemente mostra projeções fotográficas em grande formato – Meu propósito em mencionar a diversidade de métodos é para contribuir para um entendimento das clássicas fotos de estúdio, com referência a um mais complexo fundo conceitual. Devemos nos lembrar, entretanto, que Mario Cravo Neto tem estado intensamente preocupado em documentar sua Terra Natal Bahia no Nordeste do Brasil, em suas manifestações visuais e sua colorida cultura. Ele se vê como parte de sua cultura e suas fotos mostram um forte insight na herança cultural, étnica e religiosa do povo que lá vive.

A energia que toma forma em suas fotos tem suas raízes no mito. É a expressão de um estado de espírito pertencente, devemos reconhecer, à uma percepção religiosa do mundo. As fotos estão embebidas no exotismo da cultura Afro-brasileira e, elas refletem ao mesmo tempo a magia tribal xamanista e a sensibilidade barroca da cultura Portuguesa no Brasil, no qual o culto negro religioso importado da África se uniu. Mas Cravo Neto não é um etnologista. O poder de suas fotos reside no fato de serem abertas e não permitirem associações iconográficas com qualquer culto em particular. De forma mais ampla, um sem número de fotos podem ser colocadas no contexto "candomblé", religião Afro-brasileira com sua visão do cosmos, sua liturgia e rituais arcaicos. As fotografias levam o observador à uma ponte entre culturas. Elas falam de emoções e não podem ser compreendidas somente através da razão.

O fotógrafo foca o essencial; corpos e partes de corpos; objetos primários de um mundo conhecido por todos. Desta forma ele comunica a natureza essencial de coisas e seres humanos assim como suas relações de um para o outro. Teus modelos são conscientes de sua própria dignidade e beleza. O uso do espaço e o enquadramento fortalecem a referência do detalhe produzindo metáforas de grande poder.

Cravo Neto traz o observador muito perto de si. Os objetos aproximam-se do observador saídos de sua própria penumbra ou, se afundam nela. Corpos e faces – particular atenção é dada à cabeça, a sede do espírito - mas também orifícios como as orelhas, bocas e olhos, os quais representam sentidos funcionais e simbólicos, parecem ser intuídos. Os modelos praticam auto imersão meditativa para o fotógrafo e assim como os objetos cuidadosamente escolhidos com os quais eles entram numa relação de diálogo, eles aparecem totalmente únicos e fundamentalmente autênticos. As fotografias comunicam a energia física e o poder espiritual da pessoa individualmente.

Cravo Neto habilmente enfatiza a autoridade do momento presente de forma frontal. Usando luz e cortes, ele concentra , como já foi estabelecido, no essencial, trazendo o observador muito perto do assunto sem torná-lo um "voyeur". Um bom exemplo pode ser visto na foto de uma criança descansando no peito da mãe, tirada do ponto de vista da mãe amamentando. Somos lembrados de Cravo Neto, o escultor, quando notamos a forte qualidade táctil, as superfícies e estrutura da pele, penas ou cabelo. Os objetos bidimensionais virtualmente pedem para ser tocados. O artista intensifica a densidade, beleza e qualidade dos materiais através do uso de detalhes e uma luz dramática. Isso fica evidente no caso dos galhos que saem de uma boca como um grito e pode ser visto também nos músculos de uma pessoa curvada, enfatizados pela concentração e isolamento, nas penas brancas colocadas em contraste brilhante com a pele negra e nos peixes pendurados, pesadamente, sobre as costas de um homem. Tais qualidades táteis são engrandecidas pelos elementos de tensão, energia e concentração.

A luz e a abstração em preto e branco desta fotografia de estúdio, juntamente com seus objetos, aumenta a beleza de uma animalidade arcaica. No teatro destas imagens, a função intrínseca destes objetos não é só simbólica mas fetichista; elas intimidam que o observador seja levado à privacidade da prática de alguma fé panteística. Assim elas permanecem crípticas e elípticas, sendo que o observador – não como um turista testemunhando rituais religiosos de uma cultura que não é a sua - observe a forma sem penetrar o mistério. A beleza estrutural das superfícies não é usada para seus próprios propósitos, elas já possuem um significado ritual sem estarem precisamente definidas. Os corpos são colocados em oposição aos objetos numa geometria ideal, tais como uma bola. Objetos, mas também, animais são combinados com pessoas. Um excelente exemplo é a fotografia da capa deste livro, a qual aponta para uma analogia entre o modo de ver humano e o animal.

Freqüentemente a dualidade entre objetos inanimados e representantes do mundo animado é sublinhada. A identidade do sujeito é sempre obscurecida por algo - uma pedra, uma tartaruga, um pássaro, um ídolo Africano diante de suas cabeças. O trabalho nunca sugere alienação facial, mas sim o oposto: uma sublime união do homem e natureza. E estes objetos podem ser vistos num contexto arcaico e cósmico e contra um fundo da misturada religião Afro-brasileira, então seguramente podemos dizer que o gestual nestas fotografias, como uma linguagem própria, também aponta para outro tipo de significado.

Os gestos e os olhos dos modelos envolvem o observador, colocando-o dentro do espaço da fotografia. O trabalho de Cravo Neto não é o de simples fotos de experiências sublimadas. Elas tem grande força poética e beleza. Elas são símbolos de fertilidade, do caráter animal da vida, da morte e vida, da iluminação e do pensamento da força e da inocência e da proteção e da necessidade de proteção.