Foto-escultura

Retratos, encenações, mitologias de um fotógrafo brasileiro.

Mario Cravo Neto
Módulo

Alexandre Pomar

M.C.N. chega a Lisboa depois de mais de dez anos de exposição pela Europa; não é um exemplo dos últimos trânsitos conjunturais de que se ocupa a capa da "Revista". E se ele é o primeiro de uma série de autores ou artistas brasileiros que a galeria Módulo anuncia para os próximos tempos, este mesmo programa pretende já acompanhar a entrada no circuito internacional de numerosos brasileiros (e outros latino-americanos).

Esse é um processo que não tem sido possível seguir em Lisboa, onde o conhecimento da arte brasileira é muito mais limitado do que poderiam fazer supor os "laços fraternos". Algumas passagens históricas pela Gulbenkian, algumas iniciativas isoladas da 111 (Pizza e Sérgio de Camargo, dois "europeus", ou Ascânio MMM e Thomaz Ianelli) quase esgotaram o terreno. O circuito diplomático e a tradicional programação do Casino Estoril (onde, aliás, M.C.N. já expusera em 1983) não ultrapassam um quadro de mundanidades, bem caracterizado no texto de um catálogo anterior do mesmo M.C.N.: em especial na Baía, "as artes visuais são atrapalhadas pelo elogio generoso e indulgente de Jorge Amado" (Casimiro Mendonça).

As grandes mostras antológicas ("Modernidade: Art Brésilien du 20 Siècle", em Paris, 1987, ou "Arte en Iberoamérica", Londres, Estocolmo e Madrid, 89-90) têm nos passado à distância, e só a pequena colectiva "UABC", vinda do Stedelijk de Amsterdão, em 1990, permitiu recentemente conhecer alguns dos nomes em movimento. No campo da fotografia, destacavam-se nesta última exposição Sebastião Salgado, Miguel Rio Branco, dois homens da Agência Magnum, ao lado de Anna Mariani, exemplificando eloqüentemente uma essencial distinção entre fotografia documental e "artística", ou de composição, que será comum a toda a América Latina.

A presente obra fotográfica de M.C.N., revelado no início dos anos 70 com propostas de esculturas que seguiam lições conceptuais e da "land art", é mais uma vez uma demonstração das virtudes daquele trânsito, afinal revelador de uma forte consciência da impossibilidade actual da reprodução naturalista da realidade e também de uma firmeza essencial contra a autocentramento ou o cinismo da criação artística.

M.C.N. fotografa em estúdio e trabalha com modelos que são em geral familiares (a mulher, os filhos) e amigos. Utiliza o preto e branco e o formato quadrado com um rigor que se diria "clássico", agora em ampliações de um metro de lado que asseguram um poderoso efeito expositivo.

São fotografias de escultor, na medida em que a luz sobre os corpos é usada para a sua definição como volumes, sem o sentido gráfico (e simbólico) que eles têm por exemplo em Mapplethorpe, de quem alguns retratos poderiam ser aproximados. A pose encenada dos corpos, o tratamento das cabeças como formas arquetípicas e como máscaras (Tinho I e II), a qualidade textural das superfícies (Torso negro com cal) apontam numa vertente de pesquisa formal que parece também retomar alguns trabalhos de Irving Penn, numa mesma direção da "fotografia-escultura".

No entanto, as actuais fotografias de M.C.N., que se seguem a uma vasta produção mais tradicionalmente documental, investem uma explícita direcção antropológica, bem evidenciada em Figura Voodoo ou Criança Voodoo. Não saímos do estúdio, nem nada (por exemplo no uso da luz artificial, ou dos fundos, imprecisos) nos conduz à suposição da abertura a qualquer verdade primitiva, realisticamente surpreendida como natureza. Pelo contrário, a máscara e o animal ritual, ou corpo pintado sugerindo cerimónias mágicas, convivem no mesmo espaço da exposição com outras composições em que a hipótese do documento é claramente contrariada (Christian com objecto estranho - ver foto). Estamos, de facto, num mesmo e único universo fotográfico (ou artístico) em que o retrato, a encenação e o documento se denunciam como objectos certamente equivalentes, onde a pesquisa formal (não formalista) se estabelece como abertura a outros enigmas, que são os da história da arte (a arte "primitiva", Brancusi, Penn - que também fotografou personagens ritualizados, hippies ou africanos - Mapplethorpe…), os do universo pessoal (o filho Christian, Tinho, Mãe Branca), e os das práticas cultuais da religião tradicional baiana, "cruzados" com outros mitos mais genéricos.

Observe-se como , em África III, a máscara se sobrepõe a um rosto que permanece reconhecível como margem, mas que não é identificável, instabilizando assim, definitivamente, o que já era enigmático documento etnológico. Nenhuma imagem se estabelece como definitiva numa leitura de quaisquer certezas: toda a informação adicional que, como um protocolo de leitura, venha referenciar o que se dá a ver não suspende a irredutibilidade da redução da experiência visual a um discurso literário. Mas não é aqui a "realidade" que é intraduzível numa suposta exterioridade radical, nem nenhuma metafísica da "presença" se insinua; é por serem integralmente fabricadas que as imagens de M.C.N. se vêem como lugar de todos os enigmas. (Cç. Dos Mestres 34 - 16-20h excepto dom. Até 9 Maio)