Mario Cravo Neto
Módulo


Isabel Carlos Lisboa


"Que as técnicas se adaptem à nossa própria natureza", escreveu este fotógrafo brasileiro. E a fotografia é, em M.C.N., mais do que um lugar de experimentação de efeitos ou, noutra vertente, um registro da realidade: é, sobretudo, um lugar de procura da natureza humana, no que esta possui simultaneamente de visceral e de sublime. Por isso, os seus retratos não são apenas caras e corpos encenados em estúdio: são registros de algo que aconteceu, de vivências, de processos, de transformações – ou, se quisermos, de "performances" (o corpo espirrado de cal, o pássaro tropical em interacção sobre um torso, uma tartaruga no lugar do rosto: acções pontuais que desestabilizam os limites de todos os corpos). O corpo é, nestas fotografias a preto e branco, lugar simultaneamente de inscrição e ficção, de exercitação de fantasmas, de miscigenação de mundos: natural, humano ou sobrenatural. Têm a força do anímico e, apesar da sua qualidade plástica e compositiva, nunca chegam a ser formalistas; vão para além do maneirismo fotográfico estrito, do bom enquadramento, do jogo entre luz e sombra, do nu sensual ou erótico, apesar de tudo isso (também) lá se poder encontrar. Incomodam como uma fotografia de Witkin, seduzem como uma fotografia de Bruce Weber, têm a vida instantânea das fotografias de Cartier Bresson. Apesar das referências que se possam recrutar em torno deste projecto, encontramo-nos perante uma marca autoral fortíssima. Porque essas imagens não se confundem com quaisquer outras: declinam sua própria "antropologia", a sua própria evidência cultural, situando-se elas também em pleno ambiente de aculturação plástica, não sendo européias nem americanas. Talvez surpreendentemente brasileiras. (Cç. dos Mestres 34 – 16-20h excepto dom. Até 9 de Maio)