Público FIM DE SEMANA
Sexta-Feira, 17 Abril 1992

Exposições: Mario Cravo Neto - Fotografia

Da imagem como símbolo

Margarida Medeiros


São trabalhos de estúdio, concebidos a partir de um jogo, um desafio, entre o homem e o símbolo. Aparentemente estaríamos na presença do registro de arcaicos rituais. Mas as fotografias - não sendo documentais nem etnográficas - são aqui um instrumento de registro poético.

Clifford Geertz, antropólogo americano, cita, no seu livro "A interpretação das Culturas" (ed. Guanabara, 1989), uma história supostamente indiana: contaram a um inglês que o mundo repousava sobre uma plataforma apoiada nas costas de um elefante, o qual, por sua vez, se apoiava nas costas de uma tartaruga; ao que o inglês retorquira: "E onde se apoia a tartaruga?" - "Em outra tartaruga" - ter-lhe-ia sido respondido. "E essa tartaruga?", insistiu o inglês - "Ah, sahib, daí pra baixo são sempre tartarugas". Esta história, se pode servir como metáfora da construção do mundo, pode também servir, por isso mesmo, como metáfora do trabalho artístico de representação. Índice, símbolo ou ícone, qualquer que seja a topologia semântica em que situamos a imagem fotográfica, uma imagem que se preze - e todas se prezam disso - não poderá nunca negar a sua independência de todos os entrelaços (i)memoriais com que se tece o percurso imaginário de um autor. É aí que se pode falar de uma infinidade, precisa e determinante, de tartarugas, sobre as quais se ergue a multidão infinita das imagens. Dessa estruturação intertextual e intercultural, é subsidiário o trabalho fotográfico de Mario Cravo Neto.

São fotografias de estúdio , concebidas a partir de um jogo, poderíamos dizer desafio, entre o homem e o símbolo. Mas neste jogo, entre homens e símbolos, intervém uma diversidade de referências culturais. Aparentemente por vezes, diríamos estar na presença de fotografias acerca de rituais anímicos, ou totémicos. O recurso a figuras de estilo de origem étnica está muito presente: animais - um cágado e uma galinha de Angola - pinturas sobre corpos, posições de rituais africanos, artefactos. No entanto, não são fotografias documentais - etnográficas - nem é etnológica a estratégia do seu autor (pelo menos em sentido estrito). Assim, a fotografia não é aqui um instrumento de registro mais ou menos científico, mas de registro poético.

Trata-se, portanto, de visões, no sentido alucinatório que a arte pode conter, e de que a fotografia poderá especificamente reclamar pelo seu estatuto surreal. Assim o recurso às figuras de estilo de carácter étnico toma um sentido diferente, servindo de motivo para uma elaboração individual a partir de referências que pertencem a código culturais diferentes. São elementos que, pertencendo à cultura brasileira, o fotógrafo apropria para um tecido simbólico, numa posição já não mítica - colectiva - mas poética, para os reconstruir, re-espacializar e com eles produzir um outro discurso.

O medo, a morte, a mãe, a escuridão

Se seguirmos o movimento inverso ao da história indiana, isto é, das tartarugas para o elefante, a linguagem afro, o recurso insistente a modelos de raça negra, a presença de figuras da magia combina-se com outros cenários, agora de ordem fantasmática individual, para outras narrativas. Combinam-se com a insistência na esfera e no umbigo, com a pose devoradora do ventre que a galinha toma em algumas imagens, com o permanente confronto entre o negro e o branco, para falarem de certas ideias e emoções afinal muito universais: o medo, a morte, a mãe e a escuridão.

O recurso ao grande formato (um metro por um metro) não é alheio à encenação destes temas, bem como o uso do preto e branco (que em projetos mais etnográficos anteriores é substituído pela cor). As imagens tomam assim, nesta exposição, o valor de cenários oníricos, entre o sonho e o pesadelo: quase todas as personagens escondem seu olhar do espectador; preferem o infinito melancólico, a escuridão ou o ensimesmamento. São os retratos possíveis para uma revolta impossível, e em volta deles circulam aves esgravatadoras de umbigos e entranhas, esferas que lembram o início do mundo, corpos de mulher com os quais se sonhou, retratos de homem com rosto de cágado, elementos para o imaginário de uma fusão inicial perdida. E nesta permanente tensão entre a emoção e o seu símbolo, o espectador é transportado para um mundo de silêncio povoado de vozes, que às vezes são gritos, outras são bichos, aves, brinquedos, objectos que cortam ou apenas ameaçam, e outras que são simples desejos que a imaginação transformou em histórias.

A linguagem fotográfica de Mario Cravo Neto revela a capacidade que o autor possui em trabalhar de forma poderosa o recurso a diversas estratégias de figuração, entre elas as da cultura de que provém como sujeito, para a construção de universo metafórico autónomo, e através do qual lhe é possível expandir o seu imaginário enquanto sujeito numa plataforma apoiada… num elefante.