Mestre da suavização das superfícies, Mario Cravo Neto faz a dureza física da luz de Salvador passar pelo filtro da doçura espiritual que anima a cidade. O horizonte contundente do mar, as alvenarias ásperas, as pedras brilhantes e as personalidades espalhafatosas - todas essas maravilhas exageradas da Bahia - são como que cobertas por uma bruma invisível que as domestica para que melhor possamos nos aproximar de sua verdade estridente. É que, aqui, ele viu tudo e todos desde dentro, subjetivamente, antes de pôr-se na condição de operador de uma objetiva. O valor documental e poético do seu trabalho reside nessa capacidade de despejar o espírito sobre a matéria; não pelas escolhas de situações e pessoas - escolhas que também são sempre densas de poesia e informação - mas principalmente pela transformação da qualidade dessa mesma matéria. O fato é que ninguém poderia fazer um livro ao mesmo tempo tão deslumbrante e tão elucidativo sobre a Cidade do Salvador quanto ele. Sente-se o amor com que ele toca cada parede, cada grão de areia, cada ruga, cada mente desta cidade: tudo é acariciado por sua serena espera da luz.
Ao ver as imagens que Mariozinho compõe com o visível e o invisível de Salvador, os baianos nos sentimos mais bonitos - salvos - e os forasteiros aprenderão a melhor nos admirar, nos compreender, nos perdoar.

Caetano Veloso